quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Trecho de "Lugar Nenhum, Lugar Comum"

Hélio abre os olhos, levanta da cama e se veste sem fazer barulho. Mira a rapariga deitada em sua cama, repara na estranha posição em que está. "Como consegue dormir assim?", se indaga. Recolhe o copo vazio na cabeceira da cama. Sente o aroma que exala do copo e lamenta que esteja vazio. Não é desses que pensam que bebida alcoólica só deve ser consumida após o meio-dia. Ao sair do minúsculo aposento acende um cigarro. Não porque esteja com fissura, mas sim porque sempre fuma às 10:37h, independente de ser domingo. Desce as escadas do prédio com certa pressa. Alcança a calçada e a luz solar lhe ofusca a visão. Anda até ao ponto de ônibus e experimenta certa ansiedade. Sabe que está atrasado. No ponto ônibus encontra uma senhora minúscula sentada, abraçada a uma bolsa verde e com um sorriso no rosto que mostra as rugas em sua bochecha. “Bom dia”, diz a senhorinha. Heitor acena com a cabeça. “Há uma hora que estou aqui e nada de ônibus”, interpela a idosa. “Depois o país ainda quer sediar uma Copa”, completa inadvertidamente. A ansiedade aumenta. O ônibus não demora. Após sentar-se, relê um bilhete que carrega no bolso e o amassa contra o peito. “Que merda! Não dá tempo.”, pensa. "Domingo não é dia para essas coisas", continua. Após o ônibus virar em uma esquina arborizada, Hélio dá sinal e desce no primeiro ponto da rua. Corre. "Que merda, logo hoje faz 40 graus", pragueja. Ao chegar na escola de sua filha, a encontra acompanhada de sua ex-esposa e do atual companheiro, um cara que parecia ter saído de algum HQ norte-americano de tão grande que era o seu queixo. Assim que o avista, Gabriela, sua filha de 10 anos e que possui um vocabulário de um adolescente de 15 anos, corre para lhe abraçar. "Demorou, hein, careca!", ela comunicou. "Trânsito ruim", se defendeu. "Mas hoje é domingo", continuou a garotinha. "Não sabe nem inventar uma desculpa descente", alfinetou Janaína, sua ex. "Apesar de não saber, você acreditou em várias enquanto ainda estávamos juntos", pensou, porém não quis iniciar uma discussão num dia de 40 graus, então calou-se.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis [...] um é segurança e o outro é liberdade, você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. [...] Cada vez que você tem mais segurança você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo.
Bauman. Apenas para reinaugurar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

FLORES RARAS - breve comentário

Ontem Ariadne e eu estivemos no cinema para assistirmos ao novo filme de Bruno Barreto: Flores Raras. Confesso a minha agradável surpresa com a produção da obra. O filme é baseado no livro "Flores raras e banalíssimas - A história de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop". Tal livro retrata o relacionamento afetivo entre Lota de Macedo e Elizabeth Bishop (premiada poetisa norte-americana). Sobre o filme, destaco primeiramente as atuações das atrizes protagonistas Glória Pires (Lota de Macedo) e Miranda Otto (Elizabeth Bishop). Elas trouxeram para o filme uma densidade para as personagens, saindo do plano superficial (erro que poderia facilmente ocorrer) e fugindo do maniqueísmo. Dessa maneira, a relação entre as personagens traz para o filme a tensão que ocorre quando duas personalidades distintas e profundas se envolvem tão intensamente. A fotografia do filme também merece uma menção elogiosa. Ela possibilita uma ambientação que me pareceu adequada para a proposta do filme. Sobre o roteiro, temos que compreender que se trata da adaptação de uma obra literária, então, não há como fugir da sensação de que em alguns momentos houve um corte excessivo, um "andar mais rápido do que a vida permitiria". Afinal, tanto a obra literária quanto o filme tentam trazer momentos de um relacionamento que durou 16 anos. Acredito que o momento histórico (décadas de 1950 e 1960 no Brasil) e a poesia permeiam o filme do início ao fim, trazendo um algo a mais para a obra. Mérito da equipe de roteiristas. Por último, não deixaria de destacar a tragédia - mais próximo do sentido grego do termo - (tema do qual me interesso), ou melhor, a evidência dos momentos trágicos no relacionamento entre Lota e Bishop. Desde um encontro ao acaso, até um fim também ao acaso. Não relato tais momentos para não atrapalhar aos que os assistirão. Bom filme!