"Por que Ricardo consegue deitar e gozar o sono dos anjos?", Ariteia indaga, olhando-o dormir a uma distância que lhe conferia certa privacidade. "Ele é um desgraçado que atropelaria a própria mãe para se dar bem em um negócio", pragueja. Ricardo roncava com os olhos bem fechados e no momento em que tais palavras foram proferidas ele abriu os olhos e sentiu algo estranho a espetar a sua região abdominal. Alguns segundos depois, mais desperto, toma consciência dessa sensação e reconhece a vontade de defecar urgentemente. Nesse exato momento, enquanto Ariteia praguejava, Ricardo cagava.
Ele é um rapaz bem apessoado, alguns até diriam que ele é boa-pinta. Alto, cabelo sempre aparado e penteado, roupas que poderiam facilmente defini-lo como alguém "da moda". Demonstrava um tipo de sorriso em cada ocasião. Se estava em uma reunião de negócios, chegava sorrindo e mostrando os dentes superiores. Em uma ocasião menos formal apenas gesticulava com o canto direito dos lábios, sem abrir a boca. Quando estava acompanhado de uma mulher, gesticulava com o canto esquerdo e quando a moça relatava uma situação "engraçada" mostrava os dentes superiores. Em todas as situações ele contêm qualquer vontade de gargalhar. Em seu trabalho, frequentemente se deparava com as mesmas situações dia-a-dia, assim ele pôde praticar seus múltiplos sorrisos diversas vezes. O único comportamento de sua boca que ele não tinha controle era o ronco. Óbvio que tentara. Além de já ter experimentado todas as marcas de descongestionadores existentes, também já se submetera a uma cirurgia para corrigir uma falha nasal anatômica. Tudo em vão. Acostumou-se com o fato de roncar e aceitou a ideia de que ninguém é perfeito.
Ariteia é o oposto de Ricardo. Possui uma aparência difícil de descrever sem parecer que o descritor está exagerando. Tudo nela é para mais. Suas medidas, seus trejeitos e sua falta de comedimento nas ações. Etiqueta é uma palavra que nenhuma pessoa em sã consciência utilizaria para se referir a ela. Sua espontaneidade caótica sempre causa certo embaraçamento nas pessoas que se relacionam com ela. Certa vez, Dona Rute, vizinha da porta da frente do apartamento da moça, tentou alertar Ariteia para a animosidade que o excesso de espontaneidade poderia causar. Ariteia não entendeu a dica, embora Dona Rute acredite ter sido suficientemente clara e que na verdade a moça apenas fingiu não ter entendido. Assim, com essa certeza, Dona Rute acabou por criar certa animosidade em relação à sua vizinha atrapalhada.
Há seis meses, Ariteia era auxiliar da secretária do patrão de Ricardo. Quando recebeu a notícia de que seria promovida à secretária de Ricardo, pensou que seria uma excelente oportunidade para explorar as potencialidades que acreditava possuir. No primeiro dia no novo cargo, dedicou o dobro do tempo para organizar a papelada do novo patrão. Quando Ricardo viu tamanha organização, sorriu contorcendo os cantos da boca. Nada disse, mas Ariteia sentiu o quanto o havia agradado. Não demorou muito para o sorriso com os cantos da boca ser algo comum no relacionamento entre eles.
O comportamento de Ariteia nunca fora algo que despertasse a atenção de Ricardo. Havia trabalhado com cerca de dez secretárias nos últimos três anos. Comeu duas que eram excepcionalmente atraentes, mas, de uma maneira geral, não tinha intimidade com elas. Sua vida profissional seguia o curso que planejara e a vida pessoal (se é que se pode dividir a vida) estava como sempre esteve, ligava para a mãe todas as segundas-feiras e a visitava sempre nas manhãs de sábado. Sua mãe constitui toda a sua família. Cultiva algumas amizades da infância, mas não acredita que precise vê-los frequentemente. Se aproxima das mulheres somente para satisfazer sua vontade de foder. Quando não consegue pela via do convencimento oral, consegue pela via comercial. Afinal, "são negócios, elas vendem um produto que quero consumir", explica para os colegas do trabalho.
Certo dia, Ariteia escutou Ricardo contar para um colega do escritório a respeito de uma de tais transações econômicas. Após sentir um arrepio, pensou na carência afetiva que Ricardo vivenciava. E, com o jeito Ariteia de ser, foi logo contar para o patrão que possuía uma amiga que era o número dele. Não era uma mentira, de fato uma das amigas de Ariteia havia comentado que queria um relacionamento com um homem sensível e maduro. Ricardo e tal amiga se encontraram numa sexta-feira. Jantaram, beberam, foderam e dormiram. E esse foi todo o contato que tiveram. Ariteia estranhou e indagou a amiga sobre como havia sido o encontro e o porquê de não se encontrarem novamente. Esta afirmou que o encontro havia sido ótimo! Mas, após a transa, conversaram e concordaram que estavam em momentos diferentes de suas vidas. "Momentos diferentes de suas vidas"?, pensou Ariteia. "Essa deve ser a desculpa para duas pessoas promíscuas foderem sem compromisso", continuou.
Ricardo saiu do banheiro pigarreando. Dirigiu-se à cozinha e encheu um copo com água. Não reparou que Ariteia estava de vigília na copa escura. Esvaziou o copo e foi para o quarto. Ariteia permaneceu sentada na cadeira da copa, observando toda a movimentação.
Há duas semanas a secretária recebeu no escritório a visita de uma mulher de meia-idade. Cabelo grisalho, um metro e sessenta, roupas distintas que lhe davam a aparência de uma irmã de caridade. A mulher queria conversar com Ricardo sobre uma consultoria que ele havia-lhe prestado. Ariteia foi informar o patrão acerca da mulher presente na recepção. Porém, quando abriu a porta do escritório não o encontrou. Surpresa, foi contar para a "irmã de caridade" que o patrão não estava no escritório e que não sabia aonde ele estaria. A mulher perdeu o ar sacro e profanou uma dúzia de insultos na direção de Ariteia, que estava parada sem entender tal reação. "Puta que pariu, que desgraça foi aquela", pensou a secretária. Um minuto depois, Ricardo apareceu, saindo de trás das cortinas do escritório, sorrindo com os cantos da boca. "Doida!", falou o fugitivo. "Defendi o marido dela de uma acusação de assalto e ela achava que o valor que me pagou cobriria também o recurso do processo, rá, rá. Agora vem sempre aqui para reaver o investimento", continuou. "Esqueci de lhe falar, Ariteia: sempre que essa doida varrida aparecer aqui você diz que eu saí".
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